Ninguém me avisou que viver seria
tão difícil... Se soubesse disso, teria rapidamente escapulido novamente para
barriga da minha mãe. Minha ternurinha... A única pessoa na terra, que me
conhece profundamente. Minha mãe sabe dos meus defeitos, detesta-os. E sabe
elencar melhor do que ninguém minhas virtudes. O que não a poupou do imenso
criticismo alheio que carrego comigo. Um dia meu pai até me apelidou de
palmatória do mundo e foi ele também quem disse que eu jamais seria feliz na
vida. Chato ouvir isso de um pai né? Confesso que doeu, e ainda dói.
Especialmente quando você se habitua a ideia culturalmente disseminada de que
os pais devem, aconselhar, repreender, amar, mas nunca amaldiçoar seus filhos.
Essa frase ecoa ainda hoje de uma forma tão ensurdecedora que me pego a
questionar se todas as situações de infelicidade da minha vida decorrem dessa
sentença. Reluto em acreditar nisso. Ainda bem. Caso contrário, viveria
escravizada por essa ideia descabida.
Gostava mais da minha vida quando
a via de forma simples, quando, do alto da minha ingenuidade de menina, cria em
um mundo desprovido de pessoas ruins. Imaginava que todo mundo se esforçava
diariamente para ser bom. Não no sentido de ter e poder, ou de ser proficiente
no que faz, só de amor e respeito pelo outro mesmo. Hoje, ser bom assumiu
tantas conotações que aquela minha ideia de menina perdeu o seu valor.
O tempo passou, eu cresci e agora,
tudo o que sei, é que não existe um mundo maniqueísta, apenas transeuntes
tentando administrar o mau e o bem dentro de si. Em tempos que o significado de
bom tornou-se sinônimo de fraqueza, a balança pende desfavoravelmente aos
sentimentos saudáveis. Não é à toa que gostava dos meus pensamentos infantis, a
realidade adulta, a qual somos submetidos diariamente, não inspira boas
sensações.
A luta constante para fazer prevalecer
bons sentimentos como amor, bondade e compaixão é árdua, especialmente quando
você se depara com cenas inspiradas pelo egoísmo, incompreensão e desamor. É
desolador. Não sou mais a palmatória do mundo. Tornei-me palmatória de mim mesma. Percebi que
criticar a tudo e a todos não me levará a lugar algum, exceto a uma ilha. Mas nada me impede de procurar pautar ao menos a minha conduta no que acredito ser ético, respeitoso e valioso. Ainda que me leve a uma ilha.






